30 Março 2011

texto para nada

Não tenho nada para escrever; mas apetece-me.

Se calhar, vou escrever sobre não ter nada para escrever.
O que significa isso? Não ter nada para escrever…
Não sei. A verdade é que não sei.
Mas enquanto não descubro, posso sempre ir brincando com as palavras, até que uma delas, ou um ajuntamento delas me dê alguma inspiração.
Até lá, desculpem a seca e quantidade de frases insípidas.
Mas não será tudo isto insípido?
O que é que interessa o que eu ou outra pessoa qualquer dizem?
Se calhar as pessoas dizem demais, sem dizer nada na realidade.
Se calhar eu não digo mais do que as coisas que as pessoas esperam que diga.

Interpretem isto como o meu texto(s) para nada.

Quantas e quantas vezes dei comigo a pensar que nada do que acabou de me sair da boca era o que queria ter dito? E não quero com isto dizer que menti. Pelo contrário. Disse a verdade. Mas não é verdadeiro.
Como explicar?...

Ando às voltas com uma frase na cabeça:

Falo do que sinto sem sentir o que digo”.

Ainda que esteja entre aspas, não estou a citar ninguém. Cito-me a mim mesmo. E não sei se poderei ser considerado alguém, por mim mesmo. Acho que só se pode ser alguém, aos olhos de outrem. Aos nossos próprios olhos, somos alguém que não existe, ou que só existe quando se vê reflectido num espelho, em fotos, ou vídeos.

Mas voltando à frase, é como se não a compreendesse totalmente. E por isso mesmo, prefiro pensar que foi outra pessoa quem a escreveu.
Talvez a boca e o cérebro não estejam ligados. Ou melhor; na verdade é como se o coração e a boca não estivessem ligados. O que, vendo bem é factual. Às tantas o problema é esse; não haver uma ligação directa. O problema é termos um cérebro entre o coração e a boca. Uma espécie de descodificador. Um tradutor dos sentimentos. Mas, e quando o tradutor é um mau tradutor? Quando é somente uma espécie de curioso, que na verdade, desconhece por completo a cultura, os hábitos, o calão, a ironia e tudo o que é inerente a determinada língua? Já para não falar nos erros de tempos verbais, de construção frásica, etc.

Nenhuma boca consegue dizer o que um coração sente, usando o tradutor do Google.

Mas atenção que quando falo de coração, não falo necessariamente de amor.
Falo de vida. Porque acredito que a vida vem daí mesmo; do coração. Ainda que possamos pedir ajuda ao tal descodificador, que por vezes mais parece funcionar como um filtro, que outra coisa. É o problema dos electrodomésticos multitasking. Fazem montes de coisas ao mesmo tempo, mas nunca fazem bem uma que seja.
Não podes ser um bom tradutor e um filtro de verborreia, ao mesmo tempo. Não é de todo possível.

E com isto, remeto-me para os tempos da ditadura.
Estará a solução em sermos cada vez mais imaginativos e metafóricos, para conseguirmos dizer à letra o que o coração sente, sem que o filtro nos bloqueie? Mas para isso temos que conhecer o nosso censor. Como pensa.
Corremos é o risco de um dia o ditador virar escravo do coração, se este aprender demasiado com o cérebro.
Será isso bom? Não acho.
Gosto de ver peitos escancarados (e não falo de mamas).
Gosto de ouvir coisas que não devia ter ouvido, mas que sinto que foram ditas com a maior sinceridade do Mundo.
Mas também não é bom dizer-se tudo.
Às vezes os silêncios podem dizer mais que as palavras.
Às vezes o coração fala melhor na clandestinidade. Mudo e surdo.
Talvez o desafio esteja em sabermos equilibrar as coisas. Talvez a piada disto tudo seja essa mesma.
Talvez eu só precisasse de pensar isto no papel, para perceber isso mesmo, ou pelo menos acreditar que percebo.
Talvez…

1 comentários:

Anónimo disse...

"Gosto de ouvir coisas que não devia ter ouvido, mas que sinto que foram ditas com a maior sinceridade do Mundo.
Mas também não é bom dizer-se tudo.
Às vezes os silêncios podem dizer mais que as palavras." - Gosto de ouvir (ler) dos outros aquilo que por vezes sinto mas que nem sempre me apetece dizer por palavras!