10 Janeiro 2012

Prata ondulante


Olho para ti todos os dias. Sol, chuva, calor, frio…

Umas vezes mais timidamente, outras de uma forma mais descarada.

É que há dias em que não apetece sorrir.

E são esses os dias em que baixo a cabeça e me afundo num livro.

Tens esse dom; o de puxar pela dopamina que me corre no sangue.

Nunca te perguntei o nome, sei-o desde sempre.

Pertences-me ainda que não queira estar contigo a toda a hora.

A mim e a todos estes rostos pesados que me acompanham na viagem.

São só carne, foi-se-lhes a alma.

Irrita-me o teu poder de fazer mexer sem tocar.

Tocas sim, mas de uma forma etérea.

Não me interessa quem tu és, de onde vieste, para onde vais…

Só te quero aí, do outro lado do vidro, sempre que decidir abrir a cortina para sorrir.

Abre a cortina, vê como anda o tempo. Sente o peso de não haver vento.

08 Janeiro 2012

Faltam-me estórias


Sinto que estou a escrever pior...mal.

Não que ouse dizer que algum dia escrevi bem, mas certamente escrevi bem melhor.

Vivo com a sensação de que a vida que hoje vivo, o dia de hoje, me rouba as palavras de certa forma. Fica pouco por dizer...

Esta coisa de dominar um certo vocabulário, tempos verbais e saber articular palavras, não é nada se as mesmas não tiverem conteúdo que as sustente, se não disserem coisas reais ou de sonhar, se não se encadearem.

Um dicionário pode ser interessante para se consultar e conhecer palavras, mas individualmente, uma de cada vez. Não nos agarra no sentido de ficarmos ansiosos por lhe conhecer o fim. Não há um fim. O fim pode muito bem ser o princípio, se a palavra cujo significado buscamos estiver em último lugar da lista. Não há uma continuidade que nos faça lê-lo da primeira à última página, sem saltar ou voltar atrás.

E nessa medida, sinto-me de certa forma um dicionário. Há dicionários maiores e menores. O meu tem uma certa quantidade de palavras, não sei precisar se muitas ou poucas, mas as suficientes para me esquecer de algumas esporadicamente. Mas como todos os outros, o meu pode ser lido a partir do meio, do fim, do início...a página um faz o mesmo sentido antes da dois, que faria entre a treze e a vinte e três. Só seria mais dificil encontrar as palavras que procuramos, se deixasse de estar por ordem alfabética. Mas na verdade o significado de cada uma delas permaneceria intacto.

E portanto, é isso mesmo que os dicionários fazem; contam significados de coisas. Mas não contam estórias. E acho que é isso que neste momento não tenho para contar.

Se calhar é isso; faltam-me estórias.

Faltam-me, pelo menos, estórias interessantes para contar.